falta família, sobra violência!

Woman Covering Her Face In Fear Of Domestic Violence

A violência, que ocorre nas ruas, chegou nas escolas. Para combatê-la é preciso mais que muros altos, cadeados nos portões e rigorosa disciplina. A psicóloga e especialista em terapia de casal e família, Iara Monteiro de Castro, atribui aos adultos, grande parte da responsabilidade do que acontece hoje. A família não está cumprindo o seu papel de educar, dar amor e limites aos filhos.

Iara Monteiro, como todo brasileiro, fica alarmada com o que vê pela imprensa e com os fatos que tem acompanhado junto às famílias que assiste como terapeuta. Para ela esta violência exagerada, que leva o adolescente ou o jovem a tirar a vida do outro, a machucá-lo, está relacionada ao empobrecimento das relações entre pais e filhos. Considerando a assertiva de que, quando os pais fazem um carinho ou falam com um filho recém-nascido, milhões de neurônios são ativados, o mesmo não acontece quando a criança faz contato com um objeto qualquer.

Hoje o mais grave é que os pais não estão assumindo o seu papel, a sua função dentro da família que é educar seus filhos, dando amor e disciplina, amor e limites. Os pais precisam se conectar com seus filhos. Como consequência direta da falta de vínculo saudável entre pais e filhos, podem surgir as doenças psicossomáticas. As crianças começam a apresentar distúrbios, uma gripe atrás da outra ou dificuldades de aprendizagem. Ficam desatentas, sempre voando, e começam a se desvincular dos pais, dos irmãos, do colégio. Vivem em seu próprio mundo, por isso são os pais que devem se vincular aos filhos.

Quando o filho nasce, ele não sabe como fazer a conexão. Um bebezinho é um ser indefeso, que precisa de alguém que cuide dele. No caso, os pais ou os pais substitutos, os avós, os tios, ou seja, alguém que faça o papel parental na vida da criança. A criança, quando não experimenta este relacionamento, fica com a autoestima rebaixada, não aprende dos pais a amar, não aprende o que é certo e o que é errado, fica sem referências, sem limites. A verdade é que dá muito trabalho educar um filho, exige tempo, energia, dedicação e privações. Quem não estiver disposto a abrir mão de prazeres pessoais para atender a um filho, não deverá ter filhos.

Alias, ter filhos é uma opção e não uma obrigação.

Os filhos são frutos de uma união sim, mas primeiro é importante pensar que todo ser humano pode decidir pelo casamento ou não. Muitas pessoas dizem que só se realizam como casal quando têm filhos. Pessoas solteiras estão optando ter filhos sem um pai, sem um cônjuge. Nos Estados Unidos, por exemplo, através da fertilização “in vitro”, as mulheres têm um filho por meio de um banco de esperma. As pessoas acreditam que “devem” ter um filho. Muitas vezes acontece por carência. Não é difícil imaginar que, nesses casos, os pais vão gerar filhos adoecidos emocionalmente.

Não existe nenhum problema em ficar solteiro e sem filhos. Mas, se o adulto escolheu se casar, tem a opção de ter ou não tê-los. Quando se opta por ter filhos, é importante refletir sobre como estes filhos serão criados e educados. Na vida chamada moderna, ficou muito fácil fazer tudo: casar, separar, ter filhos e também não cuidar deles, alegando falta de tempo.

O que a maioria dos pais faz hoje é delegar a educação para a escola, para a igreja ou para o governo. Não  se trata de abdicar de tudo em função dos filhos, mas, quem fez a opção por tê-los, certamente deverá dividir seu tempo de forma equilibrada entre o cônjuge, os filhos, as satisfações pessoais e o trabalho.

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A pergunta que não quer calar é como equilibrar a necessidade de estar fora de casa e de cuidar dos filhos. Um bom exemplo é que, na maioria das vezes, os pais passam 8 horas trabalhando. Dormem oito horas. E as 8 horas restantes podem, muitas vezes, ser divididas assim: 4 horas na frente da televisão ou do computador, em tarefas domésticas ou conversa com amigos, e cinco ou dez minutos com os filhos.

Se os pais invertessem esta situação, já haveria uma melhora incrível no relacionamento familiar. Os filhos deveriam aprender sobre o mundo, sobre a questão da violência, sobre o respeito ao ser humano, com os pais. Para isso, é importante investir tempo com as crianças. O adulto é que organiza o tempo. Se o adulto não administrar bem o tempo dele, a criança não saberá como reivindicar. A criança dá sinais dessa necessidade. Quem tem que programar este tempo com os filhos são os pais.

Muitas vezes os pais passam a semana viajando e não dão a atenção que os filhos precisam. No final de semana, levam-nos para uma partida de futebol com os amigos dos pais, participam de um churrasco com os amigos da família e, depois, chegam em casa, deitam no sofá e dormem o resto do dia. Ou, então, durante a semana, levam o filho para fazer um depósito num banco. Não vale. Também está em jogo a qualidade do relacionamento.

O filho precisa de um programa compatível com sua idade, sua faixa de desenvolvimento. Muitos pais, equivocadamente, querem trazer o seu filho para o seu mundo. Na verdade, o pai é que têm que entrar no mundo do filho: andar de bicicleta, jogar futebol, brincar de casinha, com jogos e por aí a fora…

A redução dos índices de violência passa por uma reavaliação do papel da família.  Não como uma medida única, mas talvez das mais importantes. O homem vive um momento delicado, de transição, em que as famílias não têm assumido as suas responsabilidades. E, assim, vai-se criando uma dinastia de reis e rainhas dentro de casa que perderam a dimensão dos seus direitos e deveres. Podem tudo e acreditam que estão certos e têm razão em tudo que fazem. São os filhos.

Neste contexto, a sociedade tem que se lembrar de que crianças e idosos precisam ser cuidados, e de preferência, no seio da família que os gerou. A sociedade é muito individualizada e, hoje, ganhar dinheiro, aumentar a renda familiar, acaba sendo muito mais importante. Esse quadro vem acontecendo já há algum tempo, o que explica os filhos de todas as classes sociais adoecidos emocionalmente. Filhos que tiveram boa escola e “boa educação”, carro do ano e se envolvem com drogas e matam. Filhos que sobreviveram à miséria, passaram privações e também saem às ruas e matam. O que eles têm em comum? A falta de referência, de limites, a falta de amor para com o seu semelhante.

É possível mudar tudo isto. Quando os pais tomarem consciência desta realidade, eles mudarão. Quando os pais descobrirem que fazem diferença na vida dos seus filhos, eles mudarão. A família deve ser um lugar seguro para se crescer saudável. Não precisa ser este modelo de família que muitos têm na cabeça. A família pode ser a mãe e os filhos; o pai e os filhos; os filhos e os avós; a mãe, um tio e os filhos. Os adultos envolvidos com as crianças devem ter maturidade suficiente para entender o seu papel na formação dos mais jovens. As crianças e os adolescentes precisam ter um modelo bom de família, de um grupo de pessoas que se amam e se respeitam e vão agir da mesma forma com seus amigos e vizinhos. O ser humano não nasceu para odiar e matar o seu semelhante. O papel é justamente o inverso.

Na família da cruz,

          Iara Monteiro de Castro.¹

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¹Especialista em Terapia de Casal e Família pelo Chicago Center For Family Health – Universidade de Chicago. Formação em Supervisão Clínica em Terapia de Casal e Família no CCFH. Atualização em Terapia de Casal e Família no Wheaton College Graduate School. Pós-Graduada em Psicologia Hospitalar. Coordenadora Geral do Instituto da Família – FTSA. Psicóloga. CRP 08/02255. Londrina, PR.

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